Porque é que os espanhóis falam tão depressa?

A minha resposta é: será que falam assim tão depressa?

Já sei que dizer que os espanhóis não falam depressa é um sacrilégio em Portugal, mas às vezes é preciso blasfemar um pouco para aprender alguma coisa.

Podemos pensar na questão doutra forma: se nós achamos que os espanhóis falam muito depressa, será que eles nos ouvem a falar muito devagar?

Antes de tentar responder, gostava de vos propor um exercício: coloquem-se discretamente numa mesa de café. Agora, oiçam algum grupo de portugueses a conversar animadamente sobre um assunto que os entusiasme. Abstraiam-se do sentido das palavras e tentem perceber se estão a falar depressa ou devagar. A não ser que tenham escolhido um grupo de filósofos a tentar imitar um diálogo socrático de forma teatral, provavelmente chegarão à conclusão que os portugueses também falam rápido pa caraças.

Pois bem, não fui perguntar, mas quase que aposto que os espanhóis, quando nos ligam alguma coisa, acham que falamos como foguetes — e ainda por cima enchemos o foguete de sibilantes e vogais esquisitas. Reparem: no tempo que um espanhol leva a dizer “vocales”, já o português disse três vezes “v’gais”.

Andei à procura de sites e posts espanhóis sobre a velocidade da fala dos portugueses. Conclusão? Os espanhóis não querem saber da velocidade a que os portugueses falam… Mas lá encontrei, num canto escondido da blogoesfera, um estudante de Erasmus que se queixa: “los portugueses hablan muy rápido”. Isto enquanto tece elogios rasgados a Lisboa e aos portugueses (ai, se falassem mais devagar…).

Enfim, proponho-vos uma outra explicação para o facto de ouvirmos os espanhóis a falar tão depressa: se calhar o problema é outro. Se calhar, os portugueses compreendem um pouco pior o espanhol do que o português (porque será?…) e interpretam inconscientemente essa dificuldade como velocidade da fala do vizinho. De certa forma, a proximidade entre as línguas só acentua o fenómeno. O cérebro do português suspira ao cérebro espanhol: “tenho a certeza que se falasses mais devagar conseguia compreender-te na perfeição…”

Como afirma Jeffrey Kluger, num artigo da Time de 2011:

É uma verdade quase universal que qualquer língua que não compreendemos soa como se estivesse a ser falada a 250 km/h — uma avalanche de sílabas estrangeiras quase impossível de separar. (1)

Por isso, é bem provável que os portugueses oiçam os espanhóis a falar depressa — e que por sua vez os espanhóis oiçam os portugueses a falar como quem está atrasado para apanhar o comboio. Esta é uma espécie de teoria da relatividade da velocidade da fala: achamos sempre que os outros povos falam mais depressa do que nós.

Há uma questão mais geral e talvez mais interessante: será que há línguas realmente mais rápidas do que outras? Fica para um próximo post (2).

Luis Vaz de Camões pictogram
Luis Vaz de Camões pictogram (Photo credit: pedrosimoes7)

(1) Original: “It’s an almost universal truth that any language you don’t understand sounds like it’s being spoken at 200 m.p.h. — a storm of alien syllables almost impossible to tease apart.”

(2) Mas entretanto podem espreitar o artigo da Time que acabei de citar…

Enhanced by Zemanta

Publicado por

Marco Neves

Tradutor na Eurologos e professor de Prática da Tradução na Universidade Nova de Lisboa.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s